Uma Vida Inteira Sem Respostas

 Diagnóstico e Sociedade

O autismo que passou despercebido por décadas e só encontrou nome na terceira idade

Por Ivan Batista |

Durante muito tempo, acreditou-se que o autismo era uma condição exclusivamente associada à infância. Falava-se das crianças, das dificuldades escolares, das terapias e do desenvolvimento. Mas pouco se falava sobre os adultos. Menos ainda sobre os idosos.

A verdade é que existem milhares de pessoas que chegaram à terceira idade sem nunca terem recebido um diagnóstico formal de autismo.

São homens e mulheres que passaram a vida inteira tentando entender por que se sentiam diferentes. Pessoas que enfrentaram dificuldades de socialização, desconfortos sensoriais, desafios de comunicação e uma constante sensação de não pertencimento, sem jamais saber a razão.

Muitos foram rotulados de tímidos, antissociais, excêntricos, frios ou difíceis.

Outros aprenderam a esconder suas características para se adaptar às exigências da sociedade. Criaram estratégias para sobreviver socialmente, mesmo pagando um alto preço emocional por isso.

Na época em que eram crianças, o conhecimento sobre autismo era extremamente limitado. Os critérios diagnósticos eram diferentes, os profissionais tinham pouca formação sobre o tema e o acesso à informação era muito mais restrito.

Como consequência, milhares de autistas simplesmente passaram despercebidos.

Hoje, à medida que a compreensão sobre o espectro autista avança, muitos idosos começam a reconhecer em si mesmos características que os acompanharam durante toda a vida. Alguns procuram avaliação profissional. Outros descobrem o tema através de filhos, netos ou familiares diagnosticados.

E então acontece algo curioso.

O diagnóstico tardio não muda o passado, mas ajuda a explicar uma vida inteira.

De repente, experiências que pareciam desconexas começam a fazer sentido. As dificuldades nos relacionamentos, os desafios profissionais, o cansaço provocado pelas interações sociais e a necessidade constante de seguir rotinas deixam de ser vistos como falhas pessoais.

Passam a ser compreendidos sob uma nova perspectiva.

Isso não significa que receber um diagnóstico aos 60, 70 ou 80 anos seja fácil. Pelo contrário. Muitas vezes, a descoberta vem acompanhada de sentimentos complexos. Há quem sinta alívio. Há quem sinta tristeza pelas oportunidades perdidas. Há quem experimente ambos ao mesmo tempo.

Mas existe algo poderoso nesse processo.

Ter um nome para aquilo que sempre esteve presente pode trazer compreensão, acolhimento e paz.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, essa realidade me faz refletir sobre quantas pessoas viveram décadas sem o suporte que hoje buscamos oferecer às novas gerações. Quantos desafios poderiam ter sido menores se houvesse informação, diagnóstico e inclusão.

O aumento dos diagnósticos em adultos e idosos não significa necessariamente que existam mais autistas hoje.

Significa que estamos começando a enxergar pessoas que durante muito tempo permaneceram invisíveis.

E talvez essa seja uma das maiores lições que o autismo nos ensina.

Nunca é tarde para compreender a própria história.

Nunca é tarde para encontrar respostas.

E nunca é tarde para olhar para si mesmo com mais gentileza.