Quando a Solução Esconde o Problema

 Saúde e Autismo

Quando tratamos apenas o sintoma, a verdadeira causa continua esperando por atenção

Por Ivan Batista |


Nos últimos anos, a melatonina se tornou uma das substâncias mais utilizadas por famílias de crianças autistas que enfrentam dificuldades para dormir. E não há como negar: em muitos casos, ela ajuda. Pode reduzir o tempo para adormecer e melhorar a rotina do sono. Mas existe uma reflexão importante que precisa ser feita.

A melatonina cuida do efeito. Nem sempre da causa.

Quando uma criança não dorme bem, a pergunta que deveríamos fazer não é apenas "o que pode fazê-la dormir?", mas principalmente "por que ela não está conseguindo dormir?".

Muitas vezes, por trás de uma noite mal dormida existem questões sensoriais, ansiedade, alterações na rotina, excesso de telas, desconfortos físicos ou até dificuldades emocionais que precisam ser identificadas. Quando focamos apenas no medicamento, corremos o risco de mascarar um problema que continua existindo.

Eu vivi isso dentro da minha própria casa.

Arthur, meu filho, autista nível 3 de suporte, já fez uso de melatonina. Em determinado momento, ela teve seu papel e ajudou nossa família. Mas hoje ele não utiliza mais o medicamento. Ao longo do tempo, fomos compreendendo melhor suas necessidades, ajustando rotinas, observando gatilhos e construindo estratégias que fossem além de uma simples intervenção medicamentosa.

Isso não significa que a melatonina seja ruim. Muito pelo contrário. Quando indicada por um profissional qualificado, ela pode ser uma ferramenta importante. O problema surge quando começamos a enxergar qualquer medicamento como uma solução definitiva.

Nenhum remédio deveria ocupar o lugar da investigação, da observação e do cuidado integral.

Vivemos uma época em que existe uma busca constante por respostas rápidas. Queremos resolver o problema hoje, de preferência antes de dormir. Mas o desenvolvimento de uma criança, especialmente de uma criança autista, exige paciência, conhecimento e acompanhamento adequado.

A tentação de encontrar uma "cura" para cada dificuldade é grande. Porém, na maioria das vezes, os maiores avanços acontecem quando entendemos a origem dos desafios e não apenas seus sintomas.

A melatonina pode ajudar uma criança a dormir. Mas ela não ensina hábitos de sono. Não resolve questões sensoriais. Não elimina a ansiedade. Não substitui acompanhamento médico, terapias ou ajustes ambientais.

Por isso, é preciso cautela.

Medicamentos têm seu valor. Têm seu espaço. Mas não podem ser tratados como salvação.

Pais cansados e preocupados são naturalmente atraídos por qualquer promessa de alívio. Eu entendo isso porque também sou pai. Sei o que é desejar uma noite tranquila depois de dias difíceis. Mas aprendi que as respostas mais duradouras geralmente não vêm de um frasco. Elas vêm da compreensão, da persistência e da construção diária de estratégias que respeitem a individualidade de cada criança.

Talvez a pergunta mais importante não seja "qual remédio meu filho precisa tomar?", mas sim "o que meu filho está tentando me comunicar através dessa dificuldade?".

É aí que muitas respostas começam a aparecer.