Quando os avós não aceitam o diagnóstico

 Família e Sociedade

A dor que não vem do autismo, mas da falta de compreensão dentro da própria família

Por Ivan Batista |

Receber o diagnóstico de autismo de um filho já é, por si só, um momento que transforma completamente a vida de uma família. É uma fase marcada por dúvidas, medos, aprendizados e pela necessidade de reorganizar expectativas. Nesse processo, o apoio da família extensa — especialmente dos avós — pode fazer toda a diferença. Mas nem sempre é assim.

Muitos pais enfrentam uma dor adicional que raramente aparece nas estatísticas ou nos discursos sobre inclusão: a dificuldade de alguns avós em aceitar o diagnóstico do próprio neto.

Não se trata de falta de amor. Na maioria das vezes, é justamente o contrário. O amor existe, mas vem acompanhado de negação, medo, desconhecimento e até mesmo de luto pelas expectativas que haviam sido construídas. O problema é que, enquanto os avós tentam lidar com seus próprios sentimentos, os pais acabam carregando mais um peso em uma jornada que já é naturalmente desafiadora.

Quem vive essa realidade costuma ouvir frases como: “Ele é normal”, “Isso é falta de limites”, “No meu tempo não existia isso”, “Vocês estão exagerando” ou “Ele vai crescer e melhorar sozinho”. Embora muitas dessas frases sejam ditas sem intenção de machucar, elas acabam invalidando a experiência dos pais e atrasando um processo fundamental: a aceitação.

Aceitar o diagnóstico não significa enxergar apenas as dificuldades da criança. Significa compreender quem ela é, reconhecer suas necessidades e oferecer o suporte necessário para que se desenvolva da melhor forma possível. Quando a família nega essa realidade, cria-se uma barreira que dificulta não apenas o acesso aos tratamentos e intervenções, mas também o fortalecimento dos vínculos familiares.

Para os pais, a sensação pode ser extremamente frustrante. Afinal, além de lidarem com consultas, terapias, burocracias, adaptações e preocupações diárias, ainda precisam convencer pessoas próximas de algo que já foi avaliado e confirmado por profissionais especializados.

Na prática, essa negação pode gerar conflitos familiares, afastamentos e feridas emocionais profundas. Muitos pais deixam de compartilhar conquistas e desafios porque se sentem julgados. Outros acabam se afastando para proteger a própria saúde emocional e preservar a criança de comentários inadequados.

Mas existe um aspecto importante que precisa ser lembrado: a aceitação também é um processo para os avós. Eles cresceram em uma época em que pouco se falava sobre autismo. Muitos nunca tiveram acesso a informações corretas sobre neurodesenvolvimento. Alguns carregam preconceitos construídos ao longo de décadas. Outros simplesmente têm medo do futuro do neto e não sabem como expressar essa preocupação.

Por isso, embora seja legítimo sentir dor diante da incompreensão, também é importante abrir espaço para o diálogo quando houver disposição para aprender. Em muitos casos, o conhecimento transforma a resistência em acolhimento.

E quando essa mudança acontece, algo bonito surge. Os avós passam a compreender melhor a criança, celebram suas conquistas, respeitam seus limites e se tornam uma rede de apoio fundamental para toda a família. O neto continua sendo o mesmo de sempre — amado, especial e único — mas agora visto com mais entendimento e menos julgamento.

A verdade é que o diagnóstico não muda quem a criança é. Ele apenas dá nome a características que já estavam presentes. O que realmente faz diferença é a forma como a família escolhe enxergar essa realidade.

Porque uma criança autista não precisa de familiares que neguem sua condição. Ela precisa de pessoas que a aceitem por inteiro, respeitem suas necessidades e caminhem ao seu lado.

E talvez essa seja uma das maiores demonstrações de amor que um avô ou uma avó pode oferecer.