Quando o Pai Vai Embora

 Família e Sociedade

O abandono paterno deixa marcas profundas em qualquer criança, mas pode tornar a jornada do autismo ainda mais difícil para toda a família

Por Ivan Batista |

Existe uma ferida que atravessa milhares de lares brasileiros e que ainda recebe menos atenção do que deveria: o abandono paterno.

Quando falamos sobre autismo, costumamos discutir terapias, diagnósticos, inclusão escolar e direitos. Todos esses temas são importantes. Mas há uma realidade silenciosa que afeta inúmeras famílias atípicas e que raramente ganha espaço no debate público.

A ausência do pai.

Infelizmente, não são poucos os relatos de mães que, após o diagnóstico do filho, passaram a enfrentar a jornada praticamente sozinhas. Mulheres que viram seus relacionamentos se desgastarem diante das dificuldades, das cobranças emocionais, do medo do futuro e da responsabilidade que acompanha a criação de uma criança com necessidades de suporte.

É um tema duro.

Desconfortável.

Mas necessário.

Porque por trás de muitas mães exaustas existe uma história de abandono que poucos conhecem.

Quando um pai decide se afastar, não abandona apenas a companheira. Abandona também uma criança que precisará de amor, proteção, presença e referências ao longo de toda a vida.

E os impactos dessa ausência vão muito além da questão financeira.

A presença paterna representa segurança emocional, apoio no desenvolvimento, participação nas conquistas e compartilhamento dos desafios. Ela ajuda a dividir responsabilidades que, no contexto do autismo, costumam ser intensas e permanentes.

Quando essa presença desaparece, o peso recai quase integralmente sobre uma única pessoa.

Normalmente, a mãe.

Ela passa a ser cuidadora, terapeuta informal, administradora da casa, responsável pelas consultas, pelas terapias, pelas reuniões escolares e, muitas vezes, pela única fonte de sustento da família.

Não é difícil entender por que tantas mães de autistas relatam níveis elevados de estresse, ansiedade e depressão.

Nenhum ser humano foi feito para carregar sozinho uma responsabilidade tão grande.

Como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, não consigo imaginar uma jornada como essa sem participação ativa. Sei das noites difíceis. Das preocupações constantes. Das incertezas sobre o futuro. Sei do quanto o autismo exige da família inteira.

Por isso, sempre me causa tristeza ouvir histórias de pais que escolheram a ausência.

Ser pai não é apenas gerar uma vida.

É permanecer.

É participar.

É estar presente quando as coisas ficam difíceis.

Talvez principalmente quando ficam difíceis.

É claro que existem pais extraordinários espalhados pelo Brasil, homens que lutam diariamente pelos filhos, enfrentam preconceitos, acompanham terapias e dividem responsabilidades. Eles existem e merecem reconhecimento.

Mas também é verdade que milhares de famílias ainda convivem com a dor do abandono.

E essa realidade precisa ser discutida.

Não para apontar culpados.

Mas para despertar consciência.

Porque toda criança merece crescer sabendo que pode contar com seus pais.

E quando falamos de uma criança autista, essa necessidade se torna ainda mais evidente.

O autismo não é uma responsabilidade da mãe.

Não é uma responsabilidade da escola.

Não é uma responsabilidade dos terapeutas.

É uma responsabilidade da família.

E pai também é família.

Pai também é cuidado.

Pai também é presença.

E nenhuma criança deveria crescer sentindo falta disso.