Quando o Mundo Fala Sem Palavras

 Comportamento

A difícil missão de compreender gestos, expressões e intenções no autismo

Por Ivan Batista |

Existe uma linguagem que não está nos livros, que não é ensinada com regras claras e que a maioria das pessoas aprende naturalmente desde a infância: a linguagem das pistas sociais.

Um olhar de desaprovação, um sorriso de ironia, uma brincadeira carregada de sarcasmo, uma mudança no tom de voz ou um simples gesto de impaciência. Para muitas pessoas, essas mensagens são compreendidas quase automaticamente. Para muitos autistas, especialmente aqueles com maiores necessidades de suporte, decifrar esse universo invisível pode ser um grande desafio.

O mundo social é cheio de códigos que raramente são explicados. Esperamos que as pessoas entendam quando alguém está triste mesmo dizendo “estou bem”, que percebam quando uma conversa está chegando ao fim ou que reconheçam uma piada sem que ela seja anunciada como uma piada.

Mas e quando o cérebro processa essas informações de uma maneira diferente?

No autismo, pode haver dificuldade em integrar todos os elementos de uma interação. Enquanto uma pessoa observa o contexto geral da conversa, o autista pode se concentrar em detalhes específicos do ambiente, deixando escapar sinais sociais mais sutis. Uma expressão facial, uma mudança de humor ou uma intenção escondida nas palavras podem passar despercebidas.

Como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, vejo diariamente como o mundo pode exigir dele habilidades que muitas vezes não foram naturalmente construídas. Não é falta de interesse pelo outro, não é falta de carinho ou de vontade de se conectar. É uma maneira diferente de perceber e interpretar os sinais que chegam do ambiente.

É justamente por isso que a inclusão precisa ir além de colocar uma criança autista dentro de uma sala de aula ou de um espaço social. Incluir é compreender que existem diferentes formas de comunicação. É ter paciência, explicar de forma clara, evitar julgamentos e criar pontes entre dois mundos que precisam aprender a se encontrar.

A maior deficiência não está na dificuldade de um autista em compreender algumas pistas sociais. Muitas vezes, está na dificuldade da sociedade em perceber que nem todos leem o mundo da mesma forma.

Ensinar, acolher e respeitar é o caminho para uma comunicação mais humana — uma comunicação onde ninguém precise fingir ser quem não é para ser aceito.