Quando o casal desaparece, a família inteira sente

 Família e Relacionamentos

Sair sozinho por algumas horas não afasta os pais dos filhos. Fortalece o casamento que sustenta a casa.

Por Ivan Batista |

Existe uma culpa silenciosa que acompanha muitos pais atípicos.

Ela aparece quando surge a oportunidade de deixar o filho com alguém de confiança por algumas horas. Quando surge um convite para jantar, passear ou simplesmente caminhar sem preocupações imediatas.

A sensação é quase sempre a mesma: "Será que podemos fazer isso?"

A verdade é que muitos casais acabam acreditando que precisam abrir mão completamente da própria relação para serem bons pais.

Mas a experiência mostra justamente o contrário.

Quanto mais desgastado está o casamento, mais difícil se torna enfrentar os desafios da rotina. Quanto mais distante está o casal, mais pesado fica o peso que ambos carregam diariamente.

O autismo exige muito.

Exige energia emocional.

Exige paciência.

Exige parceria.

Exige força para enfrentar dias bons e dias extremamente difíceis.

E nenhuma dessas coisas nasce do nada.

Elas precisam ser alimentadas.

Por isso, o relacionamento não pode viver apenas das sobras do tempo.

Muitos casais atípicos passam anos sem um passeio a dois. Sem uma conversa tranquila. Sem um jantar sem interrupções. Sem um momento para lembrar que, antes de serem pai e mãe, eram duas pessoas que se apaixonaram e decidiram construir uma vida juntas.

Com o tempo, a relação vai ficando em segundo plano.

Depois em terceiro.

Depois desaparece.

E quando isso acontece, não sofre apenas o casal.

Toda a família sente.

Porque uma família emocionalmente saudável precisa de uma base sólida. E essa base começa justamente na relação entre os pais.

Sair sozinho às vezes não é abandonar o filho.

É cuidar da estrutura que ajuda a sustentá-lo.

Não é egoísmo.

É responsabilidade emocional.

Algumas horas juntos podem parecer pouco, mas fazem uma diferença enorme. São momentos para conversar sem pressa, compartilhar preocupações, rir de coisas simples e lembrar que existe uma vida além das terapias, consultas e compromissos.

E quando o casal volta a se conectar, algo importante acontece.

Os pais ficam mais leves.

Mais pacientes.

Mais equilibrados.

Mais preparados para lidar com os desafios que inevitavelmente surgem.

O filho também percebe isso.

Talvez não através das palavras, mas através do ambiente da casa.

Através da forma como os pais se tratam.

Da parceria que demonstram.

Da tranquilidade que conseguem transmitir.

Eu falo isso como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte.

Sei que existem fases em que parece impossível encontrar tempo para qualquer coisa. Sei que a rotina pode consumir quase toda a nossa energia.

Mas também aprendi que o casamento não pode ser tratado apenas como mais uma tarefa da lista.

Ele precisa ser cuidado.

Porque o amor também se desgasta quando é ignorado.

E porque um casal fortalecido não beneficia apenas duas pessoas.

Beneficia toda a família.

Inclusive o filho que está no centro de tudo.

Talvez vocês não precisem de uma grande viagem.

Talvez um café, uma caminhada ou um jantar simples já sejam suficientes.

O importante é lembrar que continuar sendo pai e mãe não significa deixar de ser marido e mulher.

Pelo contrário.

Quanto mais forte estiver o relacionamento, mais força haverá para enfrentar juntos os desafios da vida atípica.

E, no fim das contas, esse também é um dos maiores presentes que podemos oferecer aos nossos filhos.