Quando eu não estiver mais aqui? O medo que mora no coração de muitos pais de autistas

 Paternidade Atípica

Existe uma pergunta que atravessa as madrugadas de milhares de famílias: quem vai cuidar do meu filho quando meus braços não puderem mais abraçá-lo?

Por Ivan Batista |

Existe uma pergunta que nenhum pai ou mãe gostaria de fazer. Uma pergunta que chega de forma silenciosa, geralmente nas noites em que a casa finalmente se acalma e o cansaço dá lugar aos pensamentos mais profundos:

“Quem vai cuidar do meu filho quando eu não estiver mais aqui?”

Para pais de crianças autistas com alto nível de suporte, esse pensamento não é apenas um medo distante. Ele é uma presença constante. Está escondido em cada aniversário dos pais, em cada cabelo branco que aparece no espelho e em cada sinal de que o tempo continua passando.

Eu, como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, confesso que essa pergunta também visita meu coração. Hoje sou eu e a Jeane que entendemos seus gestos, seus olhares, suas necessidades e suas formas de se comunicar com o mundo. Somos nós que conhecemos seus medos, suas preferências, suas dificuldades e também suas pequenas grandes vitórias.

Mas e amanhã?

Essa é uma pergunta que dói.

A sociedade ainda fala pouco sobre o envelhecimento dos cuidadores e sobre a vida adulta das pessoas autistas que necessitam de suporte contínuo. Falamos muito sobre terapias, escolas e desenvolvimento na infância, mas precisamos ter coragem de discutir o futuro.

Precisamos pensar em políticas públicas, em moradias assistidas, em redes de apoio, em autonomia possível e em dignidade ao longo de toda a vida da pessoa autista.

Porque o autismo não termina aos 18 anos.

O medo do futuro acompanha muitos pais, mas ele não pode ser o único sentimento que nos guie. Também existe a esperança construída diariamente em cada aprendizado, em cada habilidade conquistada e em cada pessoa que entra na vida do nosso filho com amor e respeito.

Talvez nenhum pai esteja realmente preparado para aceitar que um dia não estará aqui para proteger seu filho. O amor de um pai tem algo de eterno: ele deseja continuar cuidando mesmo quando o próprio tempo diz que é impossível.

Por isso, enquanto estamos aqui, nossa missão também é preparar caminhos. Construir uma rede de afeto, ensinar o que for possível, buscar direitos e lutar por uma sociedade mais acolhedora.

Não podemos controlar o amanhã, mas podemos plantar segurança para quando ele chegar.

E talvez essa seja uma das maiores provas de amor que um pai de um filho autista pode oferecer: cuidar do futuro dele mesmo sabendo que talvez não estará presente para vê-lo acontecer.