Quando cuidar de um filho significa esquecer de si mesmo

 Paternidade Atípica

Por trás de cada pai e mãe que se dedicam integralmente a um filho, existe uma pessoa que também precisa ser vista, acolhida e cuidada.

Por Ivan Batista |

Existe um momento na jornada da paternidade atípica em que muitos pais e mães se olham no espelho e fazem uma pergunta silenciosa: “Em que momento eu deixei de ser eu?”

Antes do diagnóstico, existiam hobbies, encontros com amigos, momentos de descanso, planos pessoais e até pequenos prazeres da rotina. Depois que o autismo entra na vida da família, muitas dessas coisas começam a ser colocadas em segundo plano.

A agenda passa a ser ocupada por terapias, consultas, reuniões escolares, adaptações e uma preocupação constante com o desenvolvimento do filho. Aos poucos, sem perceber, muitos pais deixam de ser apenas homens e mulheres com sonhos, desejos e necessidades e passam a se enxergar exclusivamente como cuidadores.

É uma entrega feita por amor. Um amor tão grande que muitas vezes faz com que os próprios limites sejam ignorados.

Mas existe um risco silencioso nesse caminho: quando um pai ou uma mãe se abandona completamente, o cansaço físico e emocional começa a cobrar seu preço.

Muitos carregam um sentimento de culpa quando pensam em tirar algumas horas para si. Um simples café com um amigo, uma caminhada, um momento de lazer ou até alguns minutos de silêncio podem parecer um luxo ou um ato de egoísmo.

Mas não são.

Cuidar de si mesmo não significa cuidar menos do filho. Na verdade, é exatamente o contrário. Pais emocionalmente fortalecidos conseguem oferecer uma presença mais equilibrada, paciente e saudável dentro de casa.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, aprendi que a nossa missão é cuidar dele com toda dedicação possível, mas sem esquecer que também somos pessoas. Também temos medos, cansaços, sonhos e a necessidade de respirar.

A sociedade costuma exaltar o pai e a mãe que se sacrificam por completo, como se o amor verdadeiro exigisse o desaparecimento da própria identidade. Mas o amor não deveria significar anulação.

É possível ser um pai presente e, ao mesmo tempo, continuar sendo um homem com seus próprios sentimentos e necessidades. É possível ser uma mãe dedicada e ainda preservar sua essência, sua saúde mental e sua individualidade.

A paternidade atípica nos transforma profundamente, mas ela não deveria apagar quem somos.

Porque, antes de sermos cuidadores, somos seres humanos.

E cuidar de quem cuida também é uma forma de cuidar da criança.