Padrões repetitivos no autismo: quando um movimento é muito mais do que parece

 Comportamento

Antes de tentar interromper um comportamento, talvez seja preciso primeiro compreender o que ele está tentando comunicar.

Por Ivan Batista |

Quem convive com uma pessoa autista certamente já observou comportamentos repetitivos: balançar as mãos, alinhar objetos, repetir palavras ou frases, assistir ao mesmo vídeo inúmeras vezes, seguir sempre o mesmo caminho ou insistir em determinadas rotinas.

Para quem olha de fora, esses padrões podem parecer apenas manias ou comportamentos sem sentido. Mas, para muitas pessoas autistas, eles possuem uma função importante: ajudam a organizar o mundo, regular emoções, aliviar a ansiedade e trazer uma sensação de segurança diante de um ambiente que muitas vezes é intenso demais.

No autismo, esses comportamentos são conhecidos como padrões repetitivos e restritos de comportamento, uma das características centrais do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Eles podem aparecer de diferentes formas e com diferentes intensidades, variando de uma pessoa para outra.

Existem os movimentos repetitivos do corpo, conhecidos popularmente como estereotipias, como balançar o corpo, girar objetos ou movimentar as mãos. Há também uma forte necessidade de previsibilidade e rotina. Uma simples mudança no caminho da escola, uma alteração no horário de uma atividade ou uma mudança inesperada dentro de casa pode gerar grande desconforto.

Como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, aprendi que nem sempre o que parece estranho aos nossos olhos é algo que precisa ser corrigido. Muitas vezes, é justamente a maneira que ele encontrou de se acalmar, se comunicar com o próprio corpo e lidar com um mundo que exige dele um esforço constante de adaptação.

Isso não significa que todos os comportamentos repetitivos devam ser sempre mantidos sem intervenção. Quando eles colocam a criança em risco, causam sofrimento ou impedem seu aprendizado e sua interação com o mundo, profissionais especializados podem ajudar a encontrar estratégias respeitosas para ampliar suas possibilidades.

O grande erro da sociedade, muitas vezes, é querer eliminar aquilo que não entende. Durante muitos anos, o autismo foi visto apenas pela perspectiva do que precisava ser corrigido. Hoje, avançamos na compreensão de que inclusão também significa respeitar formas diferentes de existir.

A pergunta não deve ser apenas: “Como fazer essa criança parar de repetir esse comportamento?”. Talvez a pergunta mais humana seja: “O que esse comportamento está tentando me dizer?”.

Quando mudamos o olhar, deixamos de enxergar apenas um movimento repetido e passamos a enxergar uma pessoa tentando encontrar equilíbrio em um mundo que nem sempre foi construído pensando nela.

E talvez seja exatamente aí que nasce a verdadeira inclusão: no momento em que paramos de exigir que o autista se encaixe em tudo e começamos, como sociedade, a aprender a compreender suas necessidades.