Os Números Que Revelam a Realidade

 Políticas Públicas

Por trás das estatísticas sobre autismo existem famílias que ainda lutam por direitos básicos

Por Ivan Batista |

Os números costumam ser frios.

Mas, quando falamos de autismo, cada número representa uma pessoa, uma família e uma história de luta.

Recentemente, o Mapa Autismo Brasil, o maior levantamento nacional já realizado sobre a população autista brasileira, trouxe um retrato que merece atenção. Foram mais de 23 mil participantes em todos os estados do país. E os resultados mostram aquilo que milhares de famílias já conhecem na prática: o acesso ao diagnóstico, às terapias e à inclusão ainda está longe do ideal.

Um dos dados mais preocupantes é que apenas 15,5% dos entrevistados realizam terapias pela rede pública de saúde. A maioria das famílias depende de planos de saúde ou do pagamento particular para garantir atendimento aos seus filhos.

Outro dado chama a atenção: mais da metade dos participantes informou que a pessoa autista recebe até duas horas semanais de terapia, uma carga considerada insuficiente para muitas necessidades de acompanhamento multidisciplinar.

Na educação, o cenário também preocupa. Embora a maioria das crianças e adolescentes esteja matriculada em instituições de ensino, quase 40% dos estudantes autistas não recebem nenhum tipo de apoio educacional especializado. Estão na escola, mas nem sempre estão verdadeiramente incluídos.

E quando olhamos para a vida adulta, a realidade continua desafiadora. O levantamento mostrou índices significativos de desemprego e ausência de renda entre pessoas autistas, evidenciando que a inclusão ainda encontra barreiras muito além dos muros da escola.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, confesso que esses números não me surpreendem.

Eles apenas confirmam aquilo que tantas famílias vivem diariamente.

A dificuldade para conseguir uma consulta.

A fila para uma terapia.

A batalha contra negativas de atendimento.

A busca por uma escola preparada.

A preocupação com o futuro.

Por trás de cada estatística existe uma mãe exausta, um pai preocupado e uma criança que precisa de oportunidades para desenvolver seu potencial.

Os dados são importantes porque transformam sentimentos em evidências.

Eles mostram que os desafios enfrentados pelas famílias não são casos isolados. São questões estruturais que exigem políticas públicas, investimento e compromisso da sociedade.

O Brasil avançou muito na discussão sobre autismo nos últimos anos. Hoje temos mais informação, mais visibilidade e mais conscientização.

Mas os números mostram que ainda existe uma enorme distância entre os direitos garantidos no papel e a realidade vivida pelas famílias.

A verdadeira inclusão não será medida pela quantidade de leis aprovadas.

Será medida pelo dia em que nenhuma família precisar lutar sozinha para garantir aquilo que já deveria ser um direito básico.

Até lá, os números continuarão falando.

E nós continuaremos cobrando.