O preço do cuidado: quando o autismo se torna um mercado inacessível

 Direitos e Sociedade

Entre a necessidade de terapias especializadas e os altos custos do tratamento, milhares de famílias vivem o dilema de lutar pelo desenvolvimento dos filhos sem serem consumidas financeiramente.

Por Ivan Batista |


Falar sobre autismo também significa falar sobre dinheiro. Essa é uma realidade que muitas famílias conhecem bem, mas que ainda é pouco discutida fora das paredes de casa.

Após o diagnóstico, pais e mães são lançados em uma verdadeira corrida contra o tempo. Fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, acompanhamento multidisciplinar e outras intervenções passam a fazer parte da rotina. O problema surge quando esse cuidado, que deveria ser um direito acessível, se transforma em um privilégio de quem consegue pagar.

É nesse cenário que surge um debate delicado: existe uma "indústria do autismo"? A expressão é controversa, pois não coloca em dúvida a importância das terapias ou o trabalho sério realizado por milhares de profissionais comprometidos. O questionamento está na existência de modelos de atendimento onde valores extremamente elevados, falta de transparência e a exploração do desespero de algumas famílias podem ampliar desigualdades.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, eu sei que, quando um filho precisa de ajuda, os pais fazem o impossível. Cortam gastos, mudam planos de vida, vendem bens, assumem dívidas e, muitas vezes, sacrificam a própria saúde emocional para garantir que a criança tenha acesso ao melhor tratamento possível.

Ao mesmo tempo, existem milhares de famílias que dependem exclusivamente da saúde pública e enfrentam filas de espera, escassez de profissionais especializados e dificuldades para conseguir um atendimento contínuo e adequado.

A grande reflexão que precisamos fazer é: o acesso ao desenvolvimento de uma criança autista pode depender da condição financeira da sua família?

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva precisa garantir que o diagnóstico seja apenas o início de uma jornada de cuidado — e não o começo de uma batalha desigual entre aqueles que podem pagar e aqueles que precisam esperar.

Valorizar bons profissionais é essencial. Investir em ciência e terapias de qualidade também. Mas jamais podemos permitir que o desespero de uma família se transforme em oportunidade de lucro sem limites.

O autismo não pode ser um negócio. O autismo exige responsabilidade, ética, políticas públicas eficientes e, acima de tudo, humanidade.