O mito do gênio autista: quando o estereótipo apaga a realidade

 Mitos

Entre a genialidade romantizada e as dificuldades invisíveis, existe a vida real de milhares de pessoas autistas.

Por Ivan Batista |

Muito do que a sociedade acredita sobre o autismo foi construído por filmes, séries e histórias que ganharam destaque nas redes sociais. A imagem do autista com uma inteligência extraordinária, capaz de memorizar números, resolver cálculos complexos ou apresentar talentos excepcionais, acabou se tornando um dos maiores mitos dentro do espectro.

A verdade é que nem todo autista é um gênio.

O Transtorno do Espectro Autista é, como o próprio nome diz, um espectro. Isso significa que existem diferentes formas de manifestação, diferentes habilidades e diferentes desafios. Há pessoas autistas com QI acima da média, assim como existem aquelas com inteligência dentro da média e também aquelas que apresentam deficiência intelectual associada.

Quando colocamos todos os autistas no lugar de "gênios", criamos uma expectativa que pode ser tão injusta quanto subestimar suas capacidades.

Essa romantização pode gerar sofrimento para muitas famílias. Pais de crianças autistas com maiores necessidades de suporte, como no caso dos autistas nível 3, muitas vezes escutam frases como: “Ele pode ter um talento escondido” ou “Todo autista é muito inteligente”. Embora ditas com boa intenção, essas frases podem ignorar desafios reais, como dificuldades na comunicação, autonomia, aprendizado e independência.

Como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte, eu aprendi que o maior talento do meu filho não está em se encaixar em um estereótipo criado pela sociedade. Está em cada pequena conquista diária, em cada avanço que para muitos pode parecer simples, mas para nós representa uma verdadeira vitória.

Valorizar uma pessoa autista não deve depender de ela ser um gênio. O valor de um ser humano está na sua existência, na sua dignidade e no direito de ser respeitado exatamente como é.

Precisamos abandonar a ideia do “autista extraordinário” como única forma de enxergar potencial. Existem autistas artistas, cientistas, trabalhadores, estudantes, pessoas que precisam de apoio constante e pessoas completamente independentes. Todos pertencem ao mesmo espectro e todos merecem ser vistos.

A verdadeira inclusão começa quando deixamos de procurar gênios e passamos a enxergar pessoas.