O luto pelo filho que imaginamos: a dor silenciosa que muitos pais de autistas carregam

 Família e Emoções

Entre o sonho construído antes do nascimento e a realidade após o diagnóstico, existe um caminho de aceitação, amor e reconstrução.

Por Ivan Batista |

Quando um filho está a caminho, os pais também geram sonhos. Imaginamos os primeiros passos, as primeiras palavras, o primeiro dia de escola, as brincadeiras, as conversas, a profissão que talvez escolha, os momentos que iremos compartilhar. Sem perceber, criamos em nossa mente um filho idealizado.

Então, para muitas famílias, chega o diagnóstico de autismo.

E junto com ele vem uma avalanche de sentimentos que poucos têm coragem de admitir: medo, insegurança, culpa, tristeza e a sensação de que aquele futuro que foi desenhado durante anos talvez não aconteça da forma imaginada.

É importante dizer algo que ainda é cercado de preconceito: sentir esse luto não significa amar menos o seu filho.

Pelo contrário.

O chamado luto pelo filho idealizado é o processo de se despedir de uma expectativa construída para abrir espaço para conhecer e amar o filho real, com suas características, desafios e singularidades.

Eu vivi isso como pai do Arthur.

Quando recebemos o diagnóstico de autismo nível 3 de suporte, muitas perguntas invadiram minha mente. Será que ele vai falar? Será que vai conseguir ter autonomia? Como será sua vida quando eu não estiver mais aqui?

São perguntas duras, que visitam o coração de muitos pais em silêncio. Muitas vezes, por medo de serem julgados, eles escondem a própria dor. A sociedade parece exigir que os pais sejam fortes o tempo todo, como se não tivessem o direito de sofrer.

Mas aceitar a dor é o primeiro passo para transformá-la.

O maior erro é acreditar que a aceitação acontece de um dia para o outro. Ela chega aos poucos. Ela nasce quando passamos a celebrar uma palavra que antes não existia, um olhar, um abraço, uma pequena conquista que para outras famílias pode parecer simples, mas que para nós representa uma vitória gigantesca.

Com o tempo, muitos pais descobrem algo profundo: eles não perderam um filho. O filho sempre esteve ali.

O que ficou para trás foi uma expectativa, uma imagem criada pela nossa própria imaginação. No lugar dela surge algo muito mais verdadeiro: a oportunidade de conhecer aquele ser humano único, que tem seu próprio jeito de sentir, de aprender e de existir no mundo.

Isso não significa romantizar o autismo ou negar as dificuldades. Principalmente no autismo com alta necessidade de suporte, existem dias de cansaço extremo, preocupações com o futuro, desafios financeiros, dificuldades de comunicação e uma rotina que exige muito da família.

Amar não apaga a exaustão. Aceitar não significa deixar de sentir medo.

Mas existe uma transformação que acontece dentro de muitos pais: aos poucos, eles deixam de perguntar “por que meu filho não é como eu imaginei?” e passam a perguntar “como eu posso ajudá-lo a ser a melhor versão de quem ele é?”.

Esse talvez seja um dos maiores aprendizados da paternidade atípica.

O luto pelo filho idealizado não é o fim do amor. Muitas vezes, é justamente o caminho que permite o nascimento de um amor mais maduro, mais consciente e mais profundo.

Porque no fim, o nosso maior sonho deixa de ser que nossos filhos sigam o roteiro que escrevemos para eles. O nosso maior sonho passa a ser que eles tenham qualidade de vida, sejam respeitados e encontrem seu lugar no mundo.

E essa é uma luta pela qual vale a pena viver todos os dias.