Família e Relacionamentos
Quando o autismo ocupa todos os espaços, preservar o casamento também é um ato de cuidado
A chegada de um filho transforma qualquer casamento. Mas quando esse filho é uma criança com necessidades intensas de suporte, como acontece em muitas famílias de pessoas com autismo, a transformação é ainda mais profunda.
De repente, a rotina do casal deixa de ser feita de encontros, conversas sem pressa e pequenos momentos de conexão. Ela passa a ser organizada em torno de terapias, consultas, crises, adaptações, escola, sono irregular e uma lista interminável de responsabilidades.
A vida social, aos poucos, vai desaparecendo.
Muitos casais atípicos deixam de sair não porque deixaram de se amar, mas porque estão cansados. Porque não têm com quem deixar o filho. Porque têm medo de uma crise longe de casa. Porque sentem culpa por querer algumas horas apenas para si. Porque a rotina é tão intensa que, quando surge um momento livre, a única vontade é dormir.
E, assim, sem perceber, marido e mulher vão se transformando apenas em uma equipe de cuidadores.
Eles se falam sobre a próxima terapia, o remédio que precisa comprar, a reunião da escola, a conta que venceu, a rotina do filho. Mas deixam de perguntar um ao outro: “Como você está?”. Deixam de dar risada juntos. Deixam de lembrar quem eram antes de se tornarem pais.
Esse é um dos desafios mais silenciosos da paternidade e maternidade atípicas.
Como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte, eu conheço bem essa realidade. Eu e a Jeane vivemos o amor pelo nosso filho todos os dias, mas também aprendemos algo importante ao longo dessa caminhada: cuidar do nosso casamento não significa amar menos o nosso filho. Pelo contrário.
Um casal emocionalmente conectado se torna uma base mais forte para sustentar toda a família.
Ter uma noite para jantar juntos, tomar um café, caminhar, assistir a um filme ou simplesmente conversar sem interrupções não é luxo. Não é egoísmo. É manutenção da relação.
É lembrar que, antes de sermos pai e mãe, também somos marido e mulher.
Claro que nem sempre é simples. Muitas famílias não possuem rede de apoio, não conseguem encontrar alguém preparado para cuidar do filho ou enfrentam dificuldades financeiras que tornam esses momentos raros. Essa é uma realidade que precisa ser reconhecida com empatia, nunca com julgamento.
Mas sempre que houver uma oportunidade, por menor que seja, vale a pena alimentar esse vínculo.
Porque um casamento não termina de uma vez. Muitas vezes, ele vai se perdendo aos poucos, no silêncio, na falta de conversa, na ausência dos pequenos gestos que um dia aproximaram duas pessoas.
O autismo faz parte da nossa história. Ele mudou nossos caminhos, nossos planos e nossa forma de enxergar a vida. Mas não podemos permitir que ele apague completamente a nossa identidade como casal.
Nossos filhos precisam de pais presentes, fortes e unidos. E, para que isso aconteça, o homem e a mulher por trás dos papéis de pai e mãe também precisam continuar existindo.
Cuidar do casal é, também, uma forma de cuidar do filho.
