O Autismo Não Precisa Ser Romantizado

 Opinião e Reflexão

Entre a aceitação e a realidade: é possível amar sem negar os desafios do espectro

Por Ivan Batista |

Nos últimos anos, a internet teve um papel importante ao ampliar o conhecimento sobre o autismo. Ela deu voz a pessoas autistas, aproximou famílias e ajudou a combater preconceitos históricos. Isso é uma grande conquista.

Mas, junto com essa visibilidade, surgiu também um movimento preocupante: o romantismo do autismo.

É cada vez mais comum encontrarmos publicações que retratam o autismo apenas como um “jeito diferente de ver o mundo”, uma espécie de dom, uma sensibilidade especial ou uma característica que torna alguém extraordinário. Embora algumas pessoas autistas realmente tenham talentos marcantes e uma maneira única de perceber a vida, transformar o autismo em algo exclusivamente bonito é ignorar a realidade de milhares de famílias.

Como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte, eu sei que existe muito amor na nossa jornada. Existe um sorriso que ilumina o dia, uma conquista que parece uma grande vitória e uma conexão que nem sempre precisa de palavras.

Mas existe também a exaustão.

Existem noites sem dormir, crises intensas, dificuldades de comunicação, preocupações com o futuro, gastos financeiros elevados e um medo silencioso que acompanha muitos pais: quem cuidará do nosso filho quando nós não estivermos mais aqui?

Romantizar o autismo pode acabar invisibilizando justamente aqueles que mais precisam de suporte. Quando mostramos apenas o lado leve, divertido e inspirador do espectro, corremos o risco de esquecer as pessoas autistas que necessitam de apoio permanente, que não conseguem expressar suas dores com palavras e cujas famílias enfrentam batalhas diárias.

Aceitar o autismo não significa enfeitá-lo.

Amar uma pessoa autista não significa negar suas dificuldades.

Incluir não é fingir que todos têm os mesmos desafios, mas reconhecer as diferenças e oferecer o suporte necessário para que cada indivíduo possa viver com dignidade.

Precisamos encontrar o equilíbrio entre combater o preconceito e não apagar a realidade. O autismo não é uma tragédia, mas também não é um conto de fadas.

Ele é uma condição complexa, diversa e que se manifesta de formas muito diferentes em cada pessoa.

Eu escolho olhar para o autismo com amor, respeito e verdade. Porque a verdadeira inclusão começa quando temos coragem de enxergar todas as faces dessa jornada — as alegrias, as vitórias, as dores e os desafios.