Entre o Isolamento e a Aproximação Sem Limites

 Comportamento

Quando compreender as regras invisíveis da convivência se torna um desafio no autismo

Por Ivan Batista |

Viver em sociedade significa seguir uma série de regras que raramente são ensinadas de maneira direta. Saber a distância adequada para conversar com alguém, perceber quando uma pessoa quer ou não interagir, entender os limites do toque ou reconhecer os momentos apropriados para iniciar uma aproximação são aprendizados que, para muitos, acontecem de forma espontânea.

No autismo, essa compreensão das regras sociais pode acontecer de maneira diferente. Algumas crianças podem preferir o isolamento, evitando interações porque o ambiente social é complexo, cansativo ou difícil de interpretar. Outras podem buscar o contato de forma intensa, aproximando-se de pessoas desconhecidas, tocando nelas ou invadindo seu espaço pessoal sem perceber que aquele comportamento pode causar desconforto.

E é justamente aí que mora um dos maiores desafios: a intenção por trás da atitude nem sempre corresponde à forma como ela é percebida pelos outros.

Uma criança autista que se afasta não necessariamente rejeita as pessoas. Muitas vezes, ela está tentando lidar com estímulos, inseguranças ou dificuldades em compreender a dinâmica daquela interação. Da mesma forma, uma criança que se aproxima demais pode estar demonstrando curiosidade, alegria ou desejo de conexão, mas ainda sem compreender os limites sociais esperados.

Como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, aprendi que muitas habilidades que o mundo considera naturais precisam ser ensinadas passo a passo, com paciência, repetição e muito acolhimento. Não se trata de mudar a essência da criança, mas de oferecer ferramentas para que ela possa se relacionar com mais segurança e autonomia.

O maior erro é enxergar esses comportamentos apenas como falta de educação ou ausência de limites. Antes de corrigir, é preciso compreender. Antes de julgar, é preciso conhecer a história por trás daquela atitude.

A verdadeira inclusão acontece quando a sociedade entende que algumas crianças precisam de mais tempo e apoio para aprender regras que outros absorvem sem perceber. O respeito nasce quando trocamos o julgamento pela empatia e transformamos diferenças em oportunidades de conexão.