Não É Tudo a Mesma Coisa

 Comportamento

Entender a diferença entre seletividade alimentar e rigidez pode evitar julgamentos e ajudar a criança autista de forma mais eficaz

Por Ivan Batista |

"Ele só come a mesma coisa."

"Ela não aceita experimentar alimentos novos."

"Isso é seletividade alimentar ou é teimosia?"

Quem convive com uma criança autista provavelmente já ouviu frases parecidas. E, muitas vezes, até profissionais e familiares acabam confundindo dois fenômenos bastante comuns no espectro: a seletividade alimentar e a rigidez comportamental.

Embora possam parecer semelhantes à primeira vista, são coisas diferentes.

E compreender essa diferença é fundamental para oferecer o suporte adequado à criança.

A seletividade alimentar está relacionada à alimentação em si. A criança rejeita determinados alimentos por características específicas, como textura, cheiro, sabor, temperatura, cor ou aparência.

Para muitas pessoas autistas, a experiência de comer vai muito além do gosto.

Uma textura que para nós parece normal pode ser extremamente desagradável para elas.

Um cheiro que quase não percebemos pode ser intenso e incômodo.

Uma mistura de alimentos no prato pode gerar desconforto real.

Nesses casos, não estamos falando de falta de educação ou de uma simples escolha.

Estamos falando de questões sensoriais.

Já a rigidez comportamental envolve a necessidade de manter padrões, rotinas e previsibilidade. A dificuldade não está necessariamente no alimento em si, mas na mudança.

Uma criança pode aceitar perfeitamente determinado macarrão, mas recusar outro da mesma marca apenas porque a embalagem mudou.

Pode comer um alimento em casa e rejeitá-lo em outro ambiente.

Pode aceitar um prato servido de um jeito específico e recusá-lo quando ele aparece em um recipiente diferente.

Nesse caso, o problema principal não é a característica sensorial do alimento.

É a quebra daquilo que ela esperava encontrar.

E é justamente aí que muitas confusões acontecem.

Imagine uma criança que só aceita um determinado biscoito. À primeira vista, parece seletividade alimentar. Mas se ela aceita outros alimentos com textura semelhante e só rejeita quando aquele biscoito específico muda de formato ou embalagem, talvez estejamos diante de uma manifestação de rigidez.

Por outro lado, se ela rejeita qualquer alimento crocante, independentemente da marca ou da apresentação, a questão pode estar muito mais ligada à seletividade alimentar.

Na prática, os dois fenômenos podem coexistir.

Muitas crianças autistas apresentam tanto sensibilidades sensoriais quanto padrões rígidos de comportamento.

Por isso, observar o contexto é tão importante.

O que exatamente está sendo rejeitado?

O sabor?

A textura?

O cheiro?

Ou a mudança?

Responder a essas perguntas ajuda pais e profissionais a entenderem melhor o que está acontecendo.

E essa compreensão muda completamente a forma de intervir.

Quando existe seletividade alimentar, o trabalho geralmente envolve exposição gradual, adaptação sensorial e acompanhamento especializado.

Quando a dificuldade está relacionada à rigidez, estratégias de flexibilização e preparação para mudanças costumam ser mais eficazes.

O maior erro é interpretar tudo como birra.

Porque birra pressupõe escolha.

E, na maioria das vezes, a criança autista não está tentando desafiar ninguém.

Ela está tentando lidar com algo que gera desconforto, ansiedade ou insegurança.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, aprendi que observar é mais importante do que julgar.

Muitas vezes, aquilo que parece uma simples recusa esconde uma dificuldade que não conseguimos enxergar de imediato.

E quando trocamos o julgamento pela compreensão, passamos a encontrar caminhos mais respeitosos e eficientes.

Nem toda recusa alimentar é seletividade.

Nem toda resistência é rigidez.

Mas entender a diferença entre elas pode fazer toda a diferença na vida da criança e na tranquilidade da família.

Porque, antes de tentar mudar um comportamento, precisamos compreender o que realmente está por trás dele.