Muito além de vários profissionais: o que é uma equipe multidisciplinar ?

 Terapias e Desenvolvimento

Ter muitos especialistas atendendo uma criança autista não significa, necessariamente, que existe um trabalho em equipe...

Por Ivan Batista |

Quando uma família recebe o diagnóstico de autismo, um dos primeiros conselhos que costuma ouvir é: “É importante montar uma equipe multidisciplinar.”

E, de fato, esse suporte pode ser fundamental. Dependendo das necessidades da criança, podem fazer parte dessa jornada médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, pedagogos e outros profissionais.

Mas existe uma diferença importante que muitos pais só descobrem com o tempo: ter vários profissionais não significa ter uma equipe.

Infelizmente, em muitos casos, a criança passa por diversos atendimentos durante a semana e cada profissional trabalha como se estivesse em uma ilha. Um não sabe quais são os objetivos do outro. Não existe troca de informações, alinhamento de estratégias ou um plano comum de desenvolvimento.

No fim, todos estão trabalhando com a mesma criança, mas não necessariamente caminhando na mesma direção.

Uma equipe multidisciplinar de verdade funciona como uma orquestra.

Cada profissional possui seu conhecimento, sua técnica e seu papel específico. Mas para que exista uma bela música, todos precisam seguir a mesma partitura.

Isso significa estabelecer objetivos claros, acompanhar a evolução da criança, compartilhar observações importantes e adaptar estratégias sempre que necessário.

Se a fonoaudióloga está trabalhando comunicação funcional, por exemplo, é essencial que a família, a escola e os demais profissionais compreendam quais estratégias podem ser utilizadas no dia a dia.

Se a terapia ocupacional está ajudando a criança em questões sensoriais e de autonomia, esses aprendizados também precisam ultrapassar a porta da clínica e chegar aos ambientes onde a criança realmente vive.

A criança autista não pode ser dividida em partes.

Ela não é apenas a fala que precisa ser estimulada, a coordenação motora que precisa ser desenvolvida ou o comportamento que precisa ser compreendido.

Ela é um ser humano completo, com emoções, preferências, dificuldades, potencialidades e uma forma única de enxergar o mundo.

Por isso, uma boa equipe também entende algo fundamental: os pais fazem parte dessa equipe.

Ninguém conhece uma criança como sua família.

São os pais que sabem como ela reage em casa, quais situações geram desconforto, quais são seus interesses, seus medos, suas maiores dificuldades e também suas pequenas grandes conquistas.

O conhecimento técnico dos profissionais é indispensável, mas o conhecimento da família sobre a vida real daquela criança também precisa ser valorizado.

Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, eu aprendi que uma das maiores tranquilidades que uma família pode ter é perceber que existe comunicação entre aqueles que cuidam do seu filho.

É saber que o profissional não olha apenas para o que acontece dentro de uma sessão de cinquenta minutos, mas busca compreender a criança em todos os seus contextos: na casa, na escola, nos momentos de lazer e nos desafios cotidianos.

Uma equipe multidisciplinar eficiente não é aquela que possui o maior número de profissionais.

É aquela que possui conexão.

É aquela em que o ego dá lugar à colaboração.

Em que a disputa por quem sabe mais é substituída pela humildade de compartilhar conhecimentos.

No autismo, os melhores resultados costumam acontecer quando todos entendem uma verdade simples: ninguém desenvolve uma criança sozinho.

A evolução acontece quando família, escola e profissionais deixam de ser peças separadas e passam a formar uma única rede de apoio.

Porque uma criança não precisa de muitos especialistas trabalhando isoladamente.

Ela precisa de pessoas diferentes, com conhecimentos diferentes, mas com o mesmo propósito: ajudá-la a alcançar seu máximo potencial com respeito, dignidade e qualidade de vida.