Meu filho está de camiseta no inverno: devo me preocupar?

 Comportamento

Nem toda criança sente o frio da mesma forma. E, no autismo, essa diferença pode ser ainda mais evidente.

Por Ivan Batista |

Em muitas famílias, a cena se repete todos os anos.

A temperatura cai. Os adultos tiram os casacos do armário. As crianças colocam blusas, calças mais grossas e procuram cobertores. Mas, em algumas casas, existe uma situação que chama a atenção de quem observa de fora: a criança autista continua de camiseta, como se o inverno simplesmente não existisse.

E então surgem os comentários.

"Esse menino não está com frio?"

"Você não vai colocar uma blusa nele?"

"Vai acabar ficando doente."

Como pai de uma criança autista, aprendi que nem tudo aquilo que parece estranho para os outros é, necessariamente, um problema. Muitas vezes, é apenas uma forma diferente de perceber o mundo.

A relação entre autismo e sensibilidade sensorial é um tema bastante conhecido. Algumas pessoas autistas sentem determinados estímulos de forma muito mais intensa. Outras podem apresentar uma resposta reduzida a certos estímulos, incluindo a percepção de temperatura.

Isso significa que uma criança autista pode, de fato, não sentir frio da mesma maneira que a maioria das pessoas.

Enquanto nós estamos procurando um casaco, ela pode estar confortável usando apenas uma camiseta.

E não se trata de teimosia.

Não se trata de desafio.

Muito menos de falta de cuidado dos pais.

É uma forma diferente de processamento sensorial.

O problema é que a sociedade costuma interpretar tudo a partir da própria experiência. Se eu estou com frio, imagino que todos estejam. Se eu preciso de um casaco, acredito que todos precisem também.

Mas o autismo nos ensina diariamente que o mundo não é percebido da mesma maneira por todas as pessoas.

Isso não significa que devemos ignorar completamente a questão.

Os pais precisam observar sinais objetivos. A criança está tremendo? As mãos estão muito geladas? Os lábios estão arroxeados? Existe desconforto evidente?

Se esses sinais aparecem, é necessário intervir.

Por outro lado, se a criança está tranquila, brincando normalmente, sem demonstrar incômodo, talvez a insistência excessiva em determinadas roupas gere mais sofrimento do que proteção.

E aqui entra outro aspecto importante: a sensibilidade às roupas.

Para algumas crianças autistas, o problema não é o frio. O problema é a textura do tecido. É a etiqueta da blusa. É o peso do casaco. É a gola apertada. É a sensação da manga encostando na pele.

Aquilo que para nós parece apenas uma roupa pode ser uma experiência extremamente desconfortável para elas.

Por isso, antes de julgar uma família, vale lembrar que existem batalhas invisíveis acontecendo todos os dias.

Existe uma negociação para colocar uma meia.

Existe um esforço para experimentar um casaco novo.

Existe uma busca constante por equilíbrio entre conforto, segurança e bem-estar.

Nem sempre quem observa de fora consegue enxergar isso.

Como pai do Arthur, aprendi que muitas vezes precisamos trocar a preocupação automática pela observação atenta. Nem todo comportamento diferente é um sinal de perigo. Às vezes, é apenas uma manifestação da individualidade de uma pessoa autista.

O mais importante não é seguir uma regra rígida sobre quantas camadas de roupa uma criança deve usar.

O mais importante é conhecer a própria criança.

Entender seus sinais.

Respeitar suas características.

E agir quando houver necessidade real, não apenas para atender às expectativas de quem está olhando.

Porque o autismo nos ensina algo valioso: compreender é muito mais importante do que julgar.