Messi e o perigo dos “diagnósticos de internet”

 Sociedade

Entre boatos virais e interpretações superficiais, a história do craque argentino revela como o autismo ainda é mal compreendido — e facilmente usado fora de contexto.

Por Ivan Batista |

Nos últimos anos, uma narrativa se espalhou com força nas redes sociais: a de que Lionel Messi seria autista, ou que teria Síndrome de Asperger. A história parece convincente à primeira vista, quase encaixada em um roteiro perfeito — o gênio reservado, focado, de poucas palavras, que encontra no futebol um universo próprio.

Mas ela não é verdadeira.

Não existe nenhum diagnóstico oficial de Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou Asperger associado a Messi. A família, sua equipe e os profissionais que acompanharam sua infância na Argentina sempre negaram essa informação. O que há de registro médico é outro: Messi foi diagnosticado ainda criança com deficiência no hormônio do crescimento (GHD), condição que exigiu tratamento específico para que ele pudesse se desenvolver fisicamente.

O restante é construção de internet.

O boato ganhou força por volta de 2013, a partir de um texto sem base clínica que sugeria um diagnóstico precoce de Asperger. A partir daí, a narrativa se espalhou — impulsionada por redes sociais, blogs e até compartilhamentos de figuras públicas que não checaram a origem da informação. E como acontece com muitas histórias virais, ela passou a ser repetida mais vezes do que investigada.

Mas o ponto mais importante aqui não é apenas desmentir uma fake news. É entender o que ela revela.

Existe uma tendência perigosa de transformar comportamentos humanos em rótulos clínicos simplificados. Ser tímido, introspectivo, focado ou silencioso não é diagnóstico. São traços de personalidade — e, no caso de figuras públicas como Messi, esses traços são ampliados pela lente da fama.

No universo do autismo, isso é ainda mais sensível.

O TEA não é definido por genialidade, silêncio ou habilidades extraordinárias. Ele é um espectro complexo, que envolve comunicação, interação social, comportamento repetitivo e desafios reais no desenvolvimento e na autonomia, em diferentes níveis de suporte. Reduzir isso a “parece com alguém famoso” não apenas distorce a realidade, como também apaga a vivência de famílias que lidam diariamente com o diagnóstico.

Como pai de uma criança autista nível 3 de suporte, isso chama atenção de forma muito particular. Porque enquanto histórias como essa circulam como curiosidade, existe um mundo real de famílias que enfrentam terapias intensivas, dificuldades de comunicação, crises sensoriais e uma rotina inteira moldada pelo cuidado.

E essas famílias não estão em teorias da internet.

Elas estão na vida real.

A história de Messi, nesse contexto, serve como alerta. Não sobre ele — mas sobre nós. Sobre como buscamos explicações rápidas para o que é complexo. Sobre como romantizamos características humanas e, às vezes, usamos o autismo como metáfora, e não como condição clínica séria.

Informação importa. E no campo do neurodesenvolvimento, ela precisa ser tratada com responsabilidade.

Porque quando tudo vira “autismo” nas redes, o risco é que nada mais seja compreendido de verdade.

E o que deveria ser acolhimento vira apenas ruído.