Terapias e Desenvolvimento
Em uma rotina tomada por terapias e compromissos, uma pergunta precisa ser feita com coragem: estamos apenas acumulando sessões ou estamos realmente enxergando a evolução da criança?
Quando um filho recebe o diagnóstico de autismo, muitos pais entram em uma corrida contra o tempo. Surge o desejo de fazer tudo o que estiver ao alcance: buscar os melhores profissionais, iniciar terapias, seguir orientações e oferecer todas as oportunidades possíveis de desenvolvimento.
Esse movimento nasce do amor.
Mas, no meio dessa busca por ajudar, existe um risco que poucas famílias discutem: transformar a vida da criança em uma agenda interminável de atendimentos.
Segunda, terapia. Terça, outra intervenção. Quarta, mais uma sessão. Quinta, novos profissionais. Sexta, avaliações. E, quando percebemos, a infância começa a ser preenchida quase exclusivamente por compromissos.
É claro que as terapias têm um papel fundamental no desenvolvimento de muitas crianças autistas. Profissionais qualificados podem ajudar na comunicação, na autonomia, nas habilidades sociais, na regulação emocional e em diversas outras áreas.
O ponto central, porém, é que quantidade não deve ser confundida com qualidade.
Uma criança não evolui porque passou muitas horas dentro de uma sala de atendimento. Ela evolui quando existe um trabalho individualizado, com objetivos claros, estratégias adequadas e acompanhamento constante dos resultados.
Uma pergunta que todo pai e mãe deveriam se sentir autorizados a fazer é:
“O que meu filho evoluiu nos últimos meses?”
Ele está se comunicando melhor?
Está conseguindo lidar melhor com frustrações?
Conquistou mais autonomia nas atividades do dia a dia?
As crises diminuíram em frequência ou intensidade?
Está mais confortável para participar de momentos em família ou na escola?
Essas respostas são mais importantes do que simplesmente contar quantas horas de terapia a criança faz por semana.
Os pais atípicos, muitas vezes, vivem pressionados. Existe o medo de “perder uma janela de desenvolvimento”, o receio de não estar fazendo o suficiente e a sensação de que qualquer redução na carga de atendimentos pode significar abrir mão do futuro do filho.
E esse é um peso enorme para carregar.
Muitos pais acabam vivendo com uma culpa silenciosa, acreditando que precisam preencher cada minuto da vida da criança com algum tipo de intervenção. Mas é preciso lembrar que uma criança autista também precisa brincar, descansar, passear, conviver com a família e simplesmente ser criança.
A infância não pode se tornar apenas um conjunto de metas a serem alcançadas.
Como pai do Arthur, autista nível 3 de suporte, eu entendo o desejo de buscar tudo aquilo que possa ajudá-lo a se desenvolver. Nós, pais, queremos abrir todas as portas possíveis para nossos filhos.
Mas também precisamos aprender a olhar além da quantidade de sessões e perguntar se aquilo está trazendo significado para a vida da criança.
O objetivo de qualquer intervenção não deve ser criar uma lista de terapias para impressionar outras pessoas. O verdadeiro objetivo deve ser melhorar a qualidade de vida, ampliar a autonomia dentro das possibilidades de cada criança e proporcionar mais conforto para que ela possa existir no mundo da sua própria maneira.
É preciso coragem para buscar ajuda.
Mas também é preciso coragem para avaliar se o caminho escolhido continua fazendo sentido.
No autismo, a melhor terapia não é necessariamente aquela que ocupa mais horas da agenda. É aquela que respeita a criança, considera suas necessidades e celebra cada pequeno avanço que a aproxima de uma vida com mais possibilidades.
Porque, no fim das contas, não devemos contar apenas o número de sessões realizadas.
Devemos enxergar as conquistas que nasceram delas.
