Conscientização
A mesma palavra pode representar realidades completamente diferentes, e compreender isso é o primeiro passo para uma inclusão verdadeira.
Uma das maiores dificuldades da sociedade quando se fala em autismo é compreender o significado da palavra “espectro”. Muitas pessoas ainda acreditam que existe um único tipo de autista, com características iguais, comportamentos parecidos e as mesmas necessidades. Mas a realidade é muito mais ampla e complexa.
O termo Transtorno do Espectro Autista (TEA) existe justamente para demonstrar essa grande diversidade. O autismo se manifesta de formas diferentes em cada pessoa. Algumas podem ter maior independência no dia a dia e necessitar de menos suporte, enquanto outras precisam de auxílio constante para atividades básicas, comunicação, segurança e participação social.
Por isso, o espectro não deve ser imaginado como uma simples linha que vai de “menos autista” para “mais autista”. Trata-se de uma combinação única de características, habilidades, desafios e necessidades de suporte que variam de uma pessoa para outra.
Hoje, de maneira geral, os níveis de suporte são classificados em três níveis. O nível 1 refere-se às pessoas que necessitam de apoio, mas possuem maior autonomia em diferentes áreas da vida. O nível 2 envolve uma necessidade de suporte mais substancial. Já o nível 3 representa a necessidade de um suporte muito substancial, geralmente envolvendo maiores desafios relacionados à comunicação, interação social e autonomia.
Como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte, aprendi que compreender o espectro é abandonar comparações. Quantas vezes uma família escuta frases como: “Mas eu conheço um autista que fala muito” ou “O filho de tal pessoa é autista e faz tudo sozinho”. Essas comparações, além de injustas, ignoram a essência do próprio conceito de espectro: cada pessoa autista é única.
Também é importante lembrar que os níveis de suporte não medem o valor, a inteligência ou o potencial de uma pessoa. Eles servem como uma forma de compreender a quantidade de ajuda necessária para que aquele indivíduo tenha qualidade de vida, acesso a direitos e oportunidades de desenvolvimento.
Existe um erro comum na sociedade de enxergar apenas os extremos. Ou se cria a imagem do autista que possui grandes habilidades e alta independência, ou se olha apenas para as limitações de quem precisa de mais suporte. Mas, entre esses extremos, existe uma enorme diversidade de pessoas, histórias e formas de viver o autismo.
A verdadeira inclusão começa quando deixamos de tentar encaixar o autista em nossas expectativas e passamos a compreender suas necessidades individuais. O desafio não é fazer com que todos sejam iguais, mas garantir que cada pessoa tenha o suporte adequado para desenvolver seu máximo potencial.
Como família atípica, sabemos que o autismo não pode ser definido por uma única experiência. A história do Arthur não representa a história de todos os autistas, assim como a trajetória de outras crianças não diminui os desafios que vivemos dentro de casa.
O espectro nos ensina uma das maiores lições sobre humanidade: pessoas diferentes precisam de olhares diferentes. E quando aprendemos isso, damos um passo essencial em direção a uma sociedade mais empática, informada e verdadeiramente inclusiva.
