Qualidade de Vida
O equilíbrio no uso pode ajudar a criança autista sem desconectá-la do mundo ao seu redor
Entre os recursos mais conhecidos no universo do autismo, poucos se tornaram tão populares quanto o abafador de ruídos. Para muitas famílias, ele representa alívio em ambientes barulhentos, eventos movimentados e situações que podem causar sobrecarga sensorial.
E, de fato, quando utilizado da forma correta, pode ser um grande aliado.
Mas existe um ponto importante que nem sempre recebe a devida atenção: o abafador de ruídos deve ser uma ferramenta de apoio, e não uma barreira permanente entre a criança e o mundo.
Como pai do Arthur, meu filho autista nível 3 de suporte, aprendemos isso na prática.
Em nossa rotina, o abafador faz parte dos recursos que utilizamos para ajudá-lo em determinadas situações. Porém, sempre buscamos usar com moderação e bom senso. Nem todo ambiente exige proteção máxima. Nem todo som representa uma ameaça.
Afinal, viver também significa experimentar o mundo.
Muitas crianças autistas possuem hipersensibilidade auditiva. Sons que passam despercebidos para a maioria das pessoas podem ser extremamente desconfortáveis para elas. Fogos de artifício, shows, trânsito intenso, sirenes, eletrodomésticos e até o barulho de um shopping podem desencadear estresse e ansiedade.
Nesses momentos, o abafador cumpre um papel importante.
Ele reduz o impacto sensorial.
Diminui o desconforto.
Ajuda a criança a permanecer no ambiente com mais tranquilidade.
Mas é preciso cuidado para que seu uso não se transforme em dependência.
Quando a criança passa a utilizar o abafador o tempo todo, inclusive em ambientes que não oferecem desconforto significativo, existe o risco de limitar experiências importantes de adaptação e convivência.
O objetivo não deve ser eliminar completamente os sons do mundo.
O objetivo deve ser tornar esse mundo mais acessível.
Cada criança é única. Algumas precisarão utilizar o abafador com mais frequência. Outras, apenas em situações específicas. Não existe uma regra universal. O que existe é a necessidade de observar, compreender e respeitar as particularidades de cada indivíduo.
No caso do Arthur, procuramos avaliar cada situação. Se percebemos que o ambiente pode gerar sobrecarga, utilizamos o recurso. Mas também incentivamos experiências seguras sem o abafador quando isso é possível e confortável para ele.
Esse equilíbrio tem sido importante.
Porque proteger não significa isolar.
Apoiar não significa impedir o desenvolvimento.
E incluir não significa eliminar todos os desafios da vida.
O mundo é cheio de sons. Alguns agradáveis, outros nem tanto. E aprender a lidar com eles, dentro dos limites de cada criança, também faz parte do processo de crescimento.
O abafador de ruídos é uma ferramenta valiosa. Pode proporcionar conforto, segurança e bem-estar. Mas seu maior benefício aparece quando ele é usado com propósito, observação e equilíbrio.
Como tantas outras questões relacionadas ao autismo, a resposta raramente está nos extremos.
Ela costuma estar no meio do caminho.
Entre a proteção necessária e a liberdade de viver experiências.
Entre o cuidado e a autonomia.
Entre o silêncio e a descoberta do mundo.
E é justamente nesse equilíbrio que muitas vezes encontramos os melhores resultados.
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