A nutricionista no autismo: muito além do prato

 Saúde e Desenvolvimento

Quando alimentar uma criança autista significa compreender seus sentidos, suas dificuldades e sua forma única de estar no mundo.

Por Ivan Batista |

Entre os inúmeros profissionais que podem caminhar ao lado de uma família após o diagnóstico de autismo, a nutricionista ocupa um espaço que muitas vezes é subestimado. Muitos pais acreditam que o trabalho dela se resume a montar uma dieta ou dizer o que a criança deve ou não comer. Mas, na prática, seu papel vai muito além do prato.

Quem vive o autismo dentro de casa sabe que a alimentação pode se tornar um dos grandes desafios da rotina. Algumas crianças apresentam seletividade alimentar intensa, aceitando apenas determinados sabores, texturas, cores ou temperaturas dos alimentos. Não é birra. Não é falta de limite. Muitas vezes, é o próprio funcionamento sensorial da criança interferindo na sua relação com a comida.

É nesse momento que a nutricionista se torna uma grande parceira da família. Ela avalia se a criança está recebendo os nutrientes necessários para seu crescimento e desenvolvimento, identifica possíveis deficiências nutricionais e constrói estratégias respeitosas para ampliar o repertório alimentar, sempre considerando o tempo e os limites de cada criança.

A ansiedade dos pais é compreensível. Afinal, quando vemos nosso filho comer apenas poucos alimentos, o medo da desnutrição e dos prejuízos no desenvolvimento toma conta do coração. Mas é importante entender que a mudança alimentar no autismo não acontece através da imposição, da briga à mesa ou do famoso “come porque eu estou mandando”.

A construção de uma relação saudável com a alimentação exige paciência, conhecimento e um trabalho em conjunto entre família e profissionais. Pequenas conquistas devem ser celebradas. Um novo cheiro aceito, um alimento tocado, uma pequena mordida que antes parecia impossível — para muitas famílias, esses são verdadeiros grandes passos.

Como pai do Arthur, um autista nível 3 de suporte, eu aprendi que cada evolução tem o seu próprio tempo. Existem batalhas que quem está de fora talvez nunca compreenda, e uma delas pode acontecer todos os dias, em frente a um simples prato de comida.

Por isso, valorizar o trabalho da nutricionista é entender que ela não cuida apenas da alimentação. Ela ajuda a construir saúde, autonomia, qualidade de vida e mais tranquilidade para toda a família.

No autismo, não existem soluções mágicas. Existe ciência, acolhimento, dedicação e profissionais preparados para enxergar a criança além das dificuldades.

E, muitas vezes, uma pequena vitória à mesa representa uma gigante conquista na vida.